Os fenômenos de comunicação, ou “suposta comunicação” com o chamado mundo dos mortos, sempre existiram e sempre chamaram a atenção da humanidade. Esse fato comprova, no mínimo, a preocupação do homem com o que o espera além da vida. A dúvida, como afirma Hamlet*, em seu monólogo, nos impede de dar fim à existência e aos nossos sofrimentos por medo do desconhecido pais do sono eterno. Sono? Será mesmo sono? Haverá sonhos? Como serão esses sonhos? E, na dúvida, Hamlet, não ultrapassou as regras do trânsito cósmico e nem eu nem você devemos fazê-lo.
Pois essa curiosidade leva os mais ousados, ou portadores de uma faculdade natural, a realizar experiências de contatos imediatos de um grau ainda não catalogado. E vez por outra acontece uma espécie de “onda de fenômenos”.
AS IRMÃS FOX E OS FENÔMENOS DE HYDESVILLE
Era o que estava acontecendo no século XIX, por volta da década de 1840. Nos Estados Unidos da América, em 1847, a família Fox instalou-se em uma casa modesta na povoação de Hydesville, no estado de Nova Iorque, distante cerca de trinta quilômetros da cidade de Rochester.O grupo compunha-se do chefe da família, Sr. John D. Fox, da esposa Sra. Margareth Fox e de mais duas filhas: Kate, com 11 e Margareth, com 14 anos de idade. O casal possuía mais filhos e filhas. Entre estas, Leah, mais velha, que morava em Rochester. Inicialmente, apenas Margareth e Kate tomaram parte nos acontecimentos. Posteriormente, Leah juntou-se a elas e teve participação ativa nos episódios subsequentes ao de Hydesville.A fonte mais conhecida e divulgada sobre o ocorrido em Hydesville é o depoimento da Sra. Margareth Fox que consta no livro História do Espiritismo de Arthur Conan Doyle:
"Na noite da primeira perturbação, todos nos levantamos, acendemos uma vela e procuramos pela casa inteira, enquanto o barulho continuava e era ouvido quase que no mesmo lugar. Conquanto não muito alto, produzia um certo movimento nas camas e cadeiras a ponto de notarmos quando deitadas. Era um movimento em trêmulo, mais que um abalo súbito. Podíamos perceber o abalo quando de pé no solo. Nessa noite continuou até que dormimos. Eu não dormi até quase meia-noite. Os rumores eram ouvidos por quase toda a casa. Meu marido ficou à espera, fora da porta, enquanto eu me achava do lado de dentro, e as batidas vieram da porta que estava entre nós. Ouvimos passos na copa, e descendo a escada; não podíamos repousar, então conclui que a casa deveria estar assombrada por um Espírito infeliz e sem repouso. Muitas vezes tinha ouvido falar desses casos, mas nunca tinha testemunhado qualquer coisa no gênero, que não levasse para o mesmo terreno.
Na noite de sexta-feira, 31 de março de 1848, resolvemos ir para a cama um pouco mais cedo e não nos deixamos perturbar pelos barulhos: íamos ter uma noite de repouso. Meu marido aqui estava em todas as ocasiões, ouviu os ruídos e ajudou a pesquisa. Naquela noite fomos cedo para a cama – apenas escurecera. Achava-me tão quebrada e sem repouso que quase me sentia doente. Meu marido não tinha ido para a cama quando ouvimos o primeiro ruído naquela noite. Eu apenas me havia deitado. A coisa começou como de costume. Eu o distinguia de quaisquer outros ruídos jamais ouvidos. As meninas, que dormiam em outra cama no quarto, ouviram as batidas e procuraram fazer ruídos semelhantes, estalando os dedos.
Minha filha menor, Kate, disse, batendo palmas: "Senhor Pé-Rachado, faça o que eu faço". Imediatamente seguiu-se o som, com o mesmo número de palmadas. Quando ela parou, o som logo parou. Então Margareth disse brincando: "Agora faça exatamente como eu. Conte um, dois, três, quatro" e bateu palmas. Então os ruídos se produziram como antes. Ela teve medo de repetir o ensaio. Então Kate disse, na sua simplicidade infantil: "Oh! mamãe! eu já sei o que é. Amanhã é primeiro de abril e alguém quer nos pregar uma mentira".
Então pensei em fazer um teste de que ninguém seria capaz de responder. Pedi que fossem indicadas as idades de meus filhos, sucessivamente. Instantaneamente foi dada a exata idade de cada um, fazendo uma pausa de um para o outro, a fim de os separar até o sétimo, depois do que se fez uma pausa maior e três batidas mais fortes foram dadas, correspondendo à idade do menor, que havia morrido.
Então perguntei: "É um ser humano que me responde tão corretamente?" Não houve resposta. Perguntei: "É um Espírito? Se for dê duas batidas." Duas batidas foram ouvidas assim que fiz o pedido. Então eu disse: "Se foi um Espírito assassinado dê duas batidas". Estas foram dadas instantaneamente, produzindo um tremor na casa. Perguntei: "Foi assassinado nesta casa?" A resposta foi como a precedente. "A pessoa que o assassinou ainda vive?" Resposta idêntica, por duas batidas. Pelo mesmo processo verifiquei que fora um homem que o assassinara nesta casa e os seus despojos enterrados na adega; que a sua família era constituída de esposa e cinco filhos, dois rapazes e três meninas, todos vivos ao tempo de sua morte, mas que depois a esposa morrera. Então perguntei: "Continuará a bater se chamar os vizinhos para que também escutem?" A resposta afirmativa foi alta.
Meu marido foi chamar Mrs. Redfield, nossa vizinha mais próxima. É uma senhora muito delicada. As meninas estavam sentadas na cama, unidas uma à outra e tremendo de medo. Penso que estava tão calma como estou agora. Mrs. Redfield veio imediatamente, seriam cerca de sete e meia, pensando que faria rir às meninas. Mas quando as viu pálidas de terror e quase sem fala, admirou-se e pensou que havia algo mais sério do que esperava. Fiz algumas perguntas por ela e as respostas foram como antes. Deram-lhe a idade exata. Então ela chamou o marido e as mesmas perguntas foram feitas e respondidas.
Então, Mrs. Redfield chamou Mr. Duesler e a esposa e várias outras pessoas. Depois, Mr. Duesler chamou o casal Hyde e o casal Jewell. Mr. Duesler fez muitas perguntas e obteve as respostas. Em seguida, indiquei vários vizinhos nos quais pude pensar, e perguntei se havia sido morto por algum deles, mas não tive resposta. Após isso, Mr. Duesler fez perguntas e obteve as respostas: Perguntou: "Foi assassinado?" Resposta afirmativa. "Seu assassino pode ser levado ao tribunal?" Nenhuma resposta. "Pode ser punido pela lei?" Nenhuma resposta. A seguir, disse: "Se seu assassino não pode ser punido pela lei dê sinais." As batidas foram ouvidas claramente. Pelo mesmo processo Mr. Duesler verificou que ele tinha sido assassinado no quarto de leste, há cinco anos passados, e que o assassínio fora cometido à meia-noite de uma terça-feira, por Mr.; que fora morto com um golpe de faca de açougueiro na garganta; que o corpo tinha sido levado para a adega; que só na noite seguinte é que havia sido enterrado; tinha passado pela despensa, descido a escada, e enterrado a dez pés abaixo do solo. Também foi constatado que o motivo fora o dinheiro.
"Qual a quantia: cem dólares?" Nenhuma resposta. "Duzentos? Trezentos?" etc. Quando mencionou quinhentos dólares as batidas confirmaram.
Foram chamados muitos dos vizinhos que estavam pescando no ribeirão. Estes ouviram as mesmas perguntas e respostas. Alguns permaneceram em casa naquela noite. Eu e as meninas saímos. Meu marido ficou toda a noite com Mr. Redfield. No sábado seguinte a casa ficou superlotada. Durante o dia não se ouviram os sons; mas ao anoitecer recomeçaram.
Diziam que mais de trezentas pessoas achavam-se presentes. No domingo pela manhã os ruídos foram ouvidos o dia inteiro por todos quantos se achavam em casa.
Na noite de sábado, 1º de abril, começaram a cavar na adega; cavaram até dar n'água; então pararam. Os sons não foram ouvidos nem na tarde nem na noite de domingo. Stephen B. Smith e sua esposa, minha filha Marie, bem como meu filho David S. Fox e sua esposa dormiram no quarto aquela noite.
Nada mais ouvi desde então até ontem. Antes de meio-dia, ontem, várias perguntas foram respondidas da maneira usual. Hoje ouvi os sons várias vezes.
Não acredito em casas assombradas nem em aparições sobrenaturais. Lamento que tenha havido tanta curiosidade neste caso. Isto nos causou muitos aborrecimentos. Foi uma infelicidade morarmos aqui neste momento. Mas estou ansiosa para que a verdade seja conhecida e uma verificação correta seja procedida. Ouvi as batidas novamente esta manhã, terça-feira, 4 de abril. As meninas também ouviram.
Garanto que o depoimento acima me foi lido e que é a verdade; e que, se fosse necessário, prestaria juramento de que é verdadeiro."
Assinado Margaret Fox
11 de abril de 1848
Assim também, no mesmo livro, são relatados demais depoimentos de proprietários anteriores que alegam ocorrências de ordem sobrenatural na residência.Mudavam-se logo, pois achavam a casa “mal assombrada”.
As escavações na adega
Através de combinação alfabética com as pancadas produzidas, as irmãs Fox teriam obtido a identidade daquele que supostamente produzia os sons. Tratar-se-ia de um mascate de nome Charles B. Rosma, o qual tinha trinta e um anos quando, quatro anos antes, teria sido assassinado naquela casa e enterrado na adega. O assassino teria sido um antigo inquilino o que, pela data, levou a deduzir que o crime poderia ter sido cometido pelo Sr. Bell. Os mais interessados em esclarecer o caso resolveram escavar a adega, visando encontrar os despojos do suposto assassinado.
As escavações não levaram a quaisquer resultados uma vez que não foram encontrados quaisquer indícios de restos mortais. Por essa razão foram suspensas.
Nesta altura já havia surgido ao menos um depoimento de quem se lembrava da passagem pela região de um certo mascate na mesma data em que o suposto espírito indicou como sendo o do seu assassinato. Esse depoimento, com riqueza de detalhes, descrevia o comportamento muito suspeito dos antigos proprietários da residência em Hydesville, o Sr. Bell e a esposa que, sozinhos, teriam recebido o mascate, tendo até dispensado os empregados da casa naqueles dias.
O movimento espiritualista espalha-se
FATOS, EXAGEROS, FRAUDES, EXPLORAÇÃO DOS FENÔMENOS
As chamadas faculdades psíquicas (ou mediúnicas) são orgânicas e independem da formação moral do indivíduo. As jovens envolvidas nos fenômenos de Hydesville não tiveram orientação para se conduzirem com equilíbrio. Passaram a fazer espetáculos públicos, foram exploradas. Tornaram-se alcoólatras. Mais tarde afirmaram o disparate de terem feito os “ruidos” com o “dedão do pé”, por estarem revoltadas com Leah que tomou a guarda dos filhos de Maggie. Mas um ano após falsas denúncias de sua própria fraude e percebendo não ter atingido sua irmã Leah, Maggie decidiu desmentir a sua "confissão", alegando tê-la feito em troca de dinheiro de religiosos que se aproveitaram de sua situação de pobreza. Katherine Fox não voltou atrás em suas declarações, temendo retaliações.
São estudados os fatos ocorridos em Hydesville por cientistas e estudiosos das ciências psíquicas e comprovada sua autenticidade (Espiritismo e Animismo; Aksakof, Alexander), as irmãs Fox faleceram poucos anos depois como médiuns respeitadas por vários estudiosos da moderna parapsicologia.
A descoberta do esqueleto
Na edição de 23 de novembro de 1904 do Boston Journal foi notificada a descoberta do esqueleto de um homem cujo espírito se supunha ter ocasionado os fenômenos na casa da família Fox em 1848. Alguns meninos de uma escola achavam-se brincando na adega da casa onde residiram os Fox, casa que tinha a fama de ser mal-assombrada. Em meio aos escombros de uma parede que existira na adega, os garotos encontraram as peças de um esqueleto humano.Junto ao esqueleto foi achada uma lata de um produto costumeiro usado por mascates. Esta lata encontra-se agora em Lily Dale, na sede central regional dos Espiritualistas Americanos, para onde foi transportada da velha casa de Hydesville.
Lily Dale é a maior comunidade oficial de médiuns do mundo – e fica no Estado de Nova York. Divaldo Franco (orador e médium espírita brasileiro) já esteve algumas vezes em Lily Dale dando palestras sobre mediunidade, segundo a Doutrina Espírita e lá visitou um museu dedicado a preservar a história das irmãs Fox, inclusive dispondo da maleta do caixeiro-viajante Charles B. Rosma, cujo Espírito comunicou-se com as irmãs – fato que deu início ao Espiritualismo, em Hydesville/NY, em 1848. No DVD “Divaldo Franco – Humanista e Médium Espírita“, há o registro do médium baiano, em Lily Dale – onde proferiu uma palestra diferenciando o Espiritismo do Espiritualismo Moderno. O que apresentamos até agora está ligado ao que conhecemos como ESPIRITUALISMO MODERNO que se instalou nos Estados Unidos, Inglaterra e em outras partes do mundo, porém de forma desorganizada, e um tanto confusa e mesclada de crenças diversas e posições diferentes. É o que move, por exemplo, a inspiração de roteiros de filmes americanos, com casos de reencarnação, vida após a morte, contatos com espíritos e outros temas afins. No entanto, em meio a procura de “uma luz” há muita fantasia, exageros, fraudes e interesse econômico. Médiuns ingleses e americanos, por exemplo, cobram por seus serviços. Lily Dale que surgiu para ser uma comunidade de médiuns a serviço do bem hoje é mais um ponto turístico. Se há Espíritos trabalhando pela caridade, não estão eles ao nosso dispor para fazermos espetáculos públicos de exibicionismo. É preciso cuidado. Daí, tanta fraude. ISSO NÃO É ESPIRITISMO.
Como foi dito no início de nossa conversa, fenômenos sempre existiram. Relatamos um dos mais conhecidos e próximos à data de surgimento do Espiritismo. Mas o que há de diferente com o Espiritismo? O ESTUDO SISTEMATIZADO DOS FENÔMENOS, À LUZ DA RAZÃO, COM METODOLOGIA CIENTÍFICA. FILOSOFIA E CIÊNCIA. O Espírita primeiro analisa, investiga, para depois avaliar o fenômeno. Essa iniciativa de estudo sério dos fenômenos naturais (antes chamados de sobrenaturais) terá lugar na França, aproximadamente dez anos depois do caso de Hydesville. Aguarde nova postagem: o surgimento do Espiritismo na França.
Ser ou não ser, eis a questão: será mais nobre
Em nosso espírito sofrer pedras e setas
Com que a Fortuna, enfurecida, nos alveja,
Ou insurgir-nos contra um mar de provações
E em luta pôr-lhes fim? Morrer.. dormir: não mais.
Dizer que rematamos com um sono a angústia
E as mil pelejas naturais - herança do homem:
Morrer para dormir... é uma consumação
Que bem merece e desejamos com fervor.
Dormir... Talvez sonhar: eis onde surge o obstáculo:
Pois quando livres do tumulto da existência,
No repouso da morte o sonho que tenhamos
Devem fazer-nos hesitar: eis a suspeita
Que impõe tão longa vida aos nossos infortúnios.
Ato III, Cena I,Hamlet, Shakespeare.

